domingo, 4 de outubro de 2015

Os benefícios do ensino de linguagem de programação no currículo regular.

Os benefícios do ensino de linguagem de programação no currículo regular.
Os benefícios do ensino de linguagem de programação no currículo regular.
Até a década de 80, os computadores eram máquinas de uso corporativo e por isso, a programação de sistemas e aplicativos voltavam-se mais às necessidades corporativas e profissionais. O computador e os seus aplicativos não estavam presentes no cotidiano das pessoas.

Essa realidade sofreu uma drástica mudança a partir da década de 80, com o surgimento e a popularização dos computadores pessoais (PC). E aprofundou-se ainda mais com os smartphones e demais equipamentos tecnológicos (tablets, notebooks, etc.). Atualmente, vivemos em um mundo onde a tecnologia permeia o nosso cotidiano. Onde praticamente toda pessoa, mesmo com uma renda familiar mínima, possui um smartphone, que no fundo nada mais é do que um computador com capacidade de telefonia. Uma maioria expressiva da população está conectada nessa imensa rede mundial chamada internet, onde armazenamos e publicamos grande parte do que produzimos, observamos, conhecemos, sentimos e pensamos.

Com isso, torna-se cada vez mais necessária a criação de aplicativos que atendam as necessidades e as expectativas dos mais diversos aspectos da nossa vida profissional e, principalmente, pessoal. Além disso, com o aumento da capacidade computacional, tornou-se possível criar aplicativos antes inimagináveis. Hoje, um simples smartphone possui uma capacidade de processamento milhares de vezes maior do que os primeiros computadores da década de 40, como o ENIAC, e mesmo os da década de 70, como o computador de navegação da Apollo 11, responsável pela façanha de levar o homem à Lua.

Nessa nova realidade, começamos a nos atentar para o elo humano dessa cadeia, que geralmente passava despercebido: os programadores! Sem eles, os smartphones e tablets não têm utilidade. São os programadores que codificam e produzem os sistemas e os aplicativos que utilizamos diariamente e que se tornaram imprescindíveis em nossas vidas.

Com as novas tecnologias, a necessidade de programadores tornou-se maior e a possibilidade de criar novos aplicativos também. Não há como falar em desenvolvimento tecnológico e econômico de uma nação sem abordar a criação de uma força de trabalho dedicada à programação. Mas como suprir essa demanda? É preciso ser gênio para aprender programação de computadores e entrar no maravilhoso mundo da criação de aplicativos, seja como profissional ou simplesmente como um hobby, um passatempo, uma atividade secundária?

Aqui vai uma boa notícia: para aprender programação, seja qual for a linguagem, não é necessário ser um gênio ou ter uma inteligência acima da média. Basta ter vontade de aprender, dedicação, persistência e desenvolver o mínimo de raciocínio lógico, que é a capacidade de pensar de forma estruturada diante de um problema ou situação, reduzindo-o a situações menores que se encadeiam numa sequência lógica e coerente. Aliás, aprender programação estimula o desenvolvimento do raciocínio lógico, aprimorando a nossa capacidade de resolver problemas.

Quais são os benefícios do aprendizado de uma linguagem de programação? Além do desenvolvimento do raciocínio lógico, a programação ensina fortes noções de causalidade (causa e efeito), uma vez que toda instrução em um programa se traduz em um resultado imediato e que impacta a sequência das próximas ações e o resultado final, e desenvolve a capacidade de concentração. Programar um aplicativo ou um sistema exige foco, disciplina, capacidade de análise da situação e desenvolvimento de soluções, criatividade e capacidade de antever as consequências lógicas das instruções que estão sendo dadas ao computador. Portanto, mesmo que o estudante não se torne um profissional da área de tecnologia, ele será beneficiado pelo desenvolvimento do raciocínio lógico e das demais habilidades citadas nesse parágrafo, entre tantas outras. Dessa forma, se tornará um cidadão mais consciente e preparado para os desafios, os problemas e a complexidade do mundo atual.

Muitos especialistas, inclusive, equiparam o conhecimento de uma linguagem de programação à habilidade de comunicação em outros idiomas. Quem aprende outro idioma amplia a sua capacidade de comunicação e a sua visão de mundo, pois consegue ter contato com culturas, valores, formas de pensar e cenários diferentes. Da mesma forma, o aprendizado e a utilização de uma linguagem de programação permite-nos entender o funcionamento do computador e das tecnologias em geral, fazendo com que a sua utilização seja natural e que consigamos extrair o máximo do seu potencial e dos seus benefícios. Para muitos educadores, a programação será uma das habilidades mais importantes do futuro, equiparando-se em importância e utilidade ao aprendizado dos idiomas (inglês, espanhol, alemão, italiano, etc.), e um fator de diferenciação profissional e acadêmica.

Há um intenso debate nos meios educacionais dos Estados Unidos se o ensino da programação deve ser considerado uma nova alfabetização para as crianças. O governo americano, de forma oficial[5], está estimulando fortemente o ensino de tecnologia para os estudantes. O objetivo não é apenas permitir que os estudantes desenvolvam as habilidades descritas nesse artigo, mas também suprir a demanda de programadores no mercado de trabalho americano. Os americanos, melhores do que ninguém, compreenderam a importância da tecnologia para o crescimento econômico, cultural, social e intelectual do país. No mundo todo faltam profissionais de tecnologia. E o Brasil não é uma exceção. Pena que ainda estamos tão atrasados nessa discussão, pois o governo brasileiro, em todas as suas esferas (municipal, estadual e federal), não consegue fazer nem o básico em matéria de educação. Temos uma das piores posições no Pisa[8] (Programme for International Student Assessment – Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), uma iniciativa da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) de avaliação comparada do conhecimento de jovens do ensino médio, na faixa de 15 anos, em leitura, matemática e ciências.

Ora, com a falta de profissionais de tecnologia e a programação sendo uma disciplina tão facilmente ensinável, por que não incluí-la no currículo regular do ensino médio ou mesmo no fundamental? Esta questão e as suas reflexões parecem escapar aos educadores e formuladores de políticas educacionais do Brasil. Não há nenhuma atitude concreta nessa direção, nem mesmo um projeto piloto para testar e mensurar os resultados na prática, salvo pequenas iniciativas no ensino particular, que mesmo assim muitas vezes tratam o ensino de programação e tecnologia em geral mais como um diferencial mercadológico do que propriamente uma disciplina fundamental para o desenvolvimento das capacidades cognitivas e das habilidades das crianças e adolescentes. Não estamos falando de ensinar apenas a informática básica, que querendo ou não, todos acabarão usando, mas de produzir conteúdo tecnológico e conhecimento para uso em todas as áreas da vida.

Ensinar programação nas fases iniciais de formação ajudará o desenvolvimento das crianças e adolescentes, aumentará a empregabilidade delas, ou seja, dará mais condições para que elas se insiram no mercado de trabalho, e estimulará o preenchimento das vagas no setor de tecnologia, criando uma força profissional altamente qualificada que permitirá o desenvolvimento tecnológico, econômico e social do Brasil.

Enquanto o poder público dorme em sua letargia e inércia, as organizações do terceiro setor podem ter um papel importante no preenchimento dessa falha no currículo do ensino público e no aumento da empregabilidade dos jovens[9]/[10]. Existem organizações que ensinam tecnologia aos seus beneficiados, tornando-os mais aptos para ingressar no mercado de trabalho, não somente na área de tecnologia, mas em outros empregos e áreas, onde com certeza precisarão usar os computadores e a internet. Além disso, disseminando os conhecimentos de tecnologia, ajudam a diminuir a distância de conhecimento e oportunidades existente entre os jovens das diversas faixas de renda familiar, permitindo a construção de uma sociedade mais justa e equilibrada por meio da educação, e não apenas por meio de iniciativas de transferência direta de renda. Esta, para o país e os seus habitantes, é uma solução paliativa, enquanto a educação é a solução definitiva e permanente.

Se você, caro leitor, tem influência ou voz em instituições de ensino públicas ou particular, seja como administrador, funcionário ou cliente, pense bastante a respeito desse assunto. Além de exigir qualidade no ensino regular, considere a possibilidade de exigir o ensino de programação como parte do currículo básico regular. Se não tem, além de continuar exigindo qualidade no ensino regular das escolas públicas e privadas, considere ajudar uma organização do terceiro setor que ensine programação aos seus beneficiados. As crianças e o país agradecem.





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